"(…) Donald Griffin conta que, em 1940, quando ele e seu colega Robert Galambos anunciaram a uma conferência de zoólogos espantados suas descobertas sobre a ecolocalização dos morcegos, um cientista de renome ficou tão incrédulo e indignado que sacudiu Galambos pelos ombros enquanto protestava que não podíamos propor uma hipótese tão ultrajante. O radar e o sonar eram então descobertas altamente secretas da tecnologia militar, e a idéia de que morcegos fossem capazes de fazer qualquer coisa remotamente semelhante aos mais recentes triunfos da tecnologia eletrônica parecia a muitos não apenas implausível como também emocionalmente ofensiva. (…) É fácil simpatizar com esse ilustre cético. Existe algo de muito humano na sua relutância em acreditar. E ser “humano” é exatamente a explicação. É precisamente porque nossos sentidos humanos não são capazes de fazer o que os morcegos fazem que temos dificuldade em acreditar. É difícil imaginar que um animalzinho seja capaz de fazer “de cabeça” algo que só conseguimos entender por meio de instrumentos artificiais e cálculos no papel. Os cálculos matemáticos necessários para se explicar a visão seriam igualmente complexos e difíceis, e contudo ninguém jamais teve dificuldade em acreditar que animais pequenos possuem o sentido da visão. Essa inconsistência de nosso ceticismo deve-se, muito simplesmente, ao fato de que podemos ver, mas não podemos ecolocalizar. (…) Imagino algum outro mundo no qual uma conferência de criaturas eruditas semelhantes a morcegos, totalmente cegas, fica estarrecida ao saber que certos animais, chamados de humanos, são realmente capazes de usar os inaudíveis raios recém-descobertos chamados de “luz” — ainda um assunto militar altamente secreto — para se orientar. Essas criaturas humanas, de resto míseras, são quase inteiramente surdas (bem, são capazes de ouvir uma coisa ou outra e até mesmo de produzir grunhidos baixos e arrastados, que só lhes servem para propósitos rudimentares como a comunicação; não parecem capazes de usá-los para detectar objetos, por maiores que sejam). Por outro lado, têm órgãos altamente especializados, chamados “olhos”, que servem para explorar os raios de “luz”. O Sol é a fonte principal desses raios, e os humanos sabem explorar notavelmente os ecos complexos que ricocheteiam dos objetos expostos aos raios de luz do Sol. Possuem um aparelho engenhoso, chamado “cristalino”, cuja forma parece ter sido matematicamente calculada para refratar esses raios silenciosos, de tal modo que há uma relação biunívoca entre os objetos do mundo e as “imagens” formadas sobre uma camada de células chamada “retina”. Essas células da retina são misteriosamente capazes de tornar a luz “audível” (por assim dizer), e elas transmitem toda essa informação para o cérebro. Nossos matemáticos mostraram que é teoricamente possível, com a ajuda de cálculos muito complexos, deslocar-se com segurança pelo mundo usando esses raios de luz, com a mesma eficácia que qualquer um de nós o faz usando os ultra-sons — e em alguns aspectos com eficácia ainda maior! Mas quem haveria de imaginar que um mísero humano fosse capaz de fazer tais cálculos? (…)"
Richard Dawkins, O Relojoeiro Cego