"Viajar supõe, portanto, recusar o emprego do tempo laborioso da civilização em proveito do lazer inventivo e alegre. A arte da viagem induz uma ética lúdica, uma declaração de guerra ao espaço quadriculado e à cronometragem da existência. A cidade obriga ao sedentarismo através de uma abscissa espacial e de uma ordenada temporal: estar sempre num determinado lugar num momento preciso. Assim o indivíduo é controlado e facilmente identificado por uma autoridade. Já o nômade recusa essa lógica que permite transformar o tempo em dinheiro, e a energia singular, único bem de que dispõe, em moeda sonante e legal. Partir, ir atrás dos pastores, é (…) romper as amarras com os entraves e as servidões do mundo moderno. A eleição do planeta inteiro como périplo equivale a condenação do que fecha e subjuga: o trabalho, a família e a pátria, para falar apenas dos entraves mais visíveis, mais identificáveis. (…)"
Michel Onfray, Teoria da Viagem