"Quem observou o mundo em profundidade, percebe quanta sabedoria existe no fato de os homens serem superficiais. É o seu instinto conservador que lhes ensina a ser volúveis, ligeiros e falsos. […] Ninguém duvide que quem necessita de tal maneira adorar a superfície em algum momento fez uma incursão infeliz por baixo dela. […] O grau de desgosto que a vida alcançou neles poderia ser medido pelo quanto desejam vê-la falseada, diluída, idealizada, divinizada - os homens religiosos poderiam ser colocados entre os artistas, como sua categoria suprema. […] É o profundo e desconfiado temor a um pessimismo incurável, o que obriga milênios inteiros a abraçar firmemente uma interpretação religiosa do existir: o temor daquele instinto que pressente que se poderia ter a verdade cedo demais, antes que o homem tenha se tornado forte, duro e artista o bastante… Vista com este olhar, a devoção, a “vida em Deus”, apareceria como o rebento último e mais sutil do temor à verdade… como vontade de inversão da verdade, de inverdade a todo preço."
F. W. Nietzsche, Além do Bem e do Mal (via depredando)